O Brasil, maior fornecedor de soja da China, enfrenta três fatores de risco no principal mercado do grão: a retomada das compras chinesas de soja dos Estados Unidos, o plano de Pequim de depender menos de importações e a perspectiva de queda da população chinesa. Projeções ouvidas por especialistas apontam redução de até 25% nas importações chinesas até 2030.
O acordo com Washington
A China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas de soja dos EUA por ano entre 2026 e 2028, além de ao menos US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas americanos, compromisso anunciado em maio, após o retorno do presidente Donald Trump de uma cúpula em Pequim. Antes, em resposta ao tarifaço americano, a China havia imposto sobre a soja dos EUA uma tarifa adicional de mais de 20%, o que, segundo a associação americana do setor, tornou o grão mais caro que o produzido na América Latina; as exportações americanas para a China caíram 50% em um ano.
Em setembro, EUA e China concordaram em reduzir tarifas sobre US$ 60 bilhões em mercadorias, mas a soja ficou de fora e manteve tarifa de 13%, contra 3% para a soja brasileira. A diferença de dez pontos preserva a competitividade do Brasil no curto prazo, segundo Patrícia Ellen, da consultoria Systemiq. A especialista em China Larissa Wachholz lembra que o volume de 25 milhões de toneladas está dentro do que os chineses já compravam dos EUA em anos anteriores; o risco, diz ela, seria a China ampliar as compras americanas além do acordado.
O tamanho da dependência
Desde 2017 o Brasil é o principal fornecedor de soja da China. Em 2016, os EUA respondiam por 41% da soja comprada pelos chineses, e o Brasil, por 45%. O país bateu recorde de exportações para a China em 2025 e, em 2026, já enviou quase 64 milhões de toneladas, segundo a Aprosoja. O presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, considera difícil que os EUA voltem a exportar mais de 30 milhões de toneladas ao mercado chinês e avalia que a posição brasileira está consolidada.
O alerta para o campo
Relatório da Systemiq indica que uma contração da demanda chinesa pode derrubar preços e receitas de exportação, com efeitos sobre a renda dos produtores, o valor das terras, o emprego rural e a infraestrutura de processamento. Os especialistas recomendam evitar ampliar a área plantada, investir no processamento do grão para agregar valor e buscar novos mercados, como a Índia, além de biocombustíveis. A projeção de queda de 25% é um cenário apresentado por especialistas, não um dado oficial da China.





















