Economia

China quer importar até 25% menos soja até 2030 e o Brasil pode sentir

Compromisso de comprar 25 milhões de toneladas dos EUA, meta chinesa de autossuficiência e queda da população entram no cálculo; no curto prazo, tarifa menor mantém a vantagem da soja brasileira.

Colhedora amarela despeja grãos de soja em caminhão em lavoura de Rondonópolis, Mato Grosso
Colheita de soja em Rondonópolis (MT), em março de 2009. Foto de arquivo: Roosevelt Pinheiro/ABr — CC BY 3.0 BR. A imagem não registra as exportações atuais. Origem da fotografia. Condição de uso.

O Brasil, maior fornecedor de soja da China, enfrenta três fatores de risco no principal mercado do grão: a retomada das compras chinesas de soja dos Estados Unidos, o plano de Pequim de depender menos de importações e a perspectiva de queda da população chinesa. Projeções ouvidas por especialistas apontam redução de até 25% nas importações chinesas até 2030.

O acordo com Washington

A China se comprometeu a comprar 25 milhões de toneladas de soja dos EUA por ano entre 2026 e 2028, além de ao menos US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas americanos, compromisso anunciado em maio, após o retorno do presidente Donald Trump de uma cúpula em Pequim. Antes, em resposta ao tarifaço americano, a China havia imposto sobre a soja dos EUA uma tarifa adicional de mais de 20%, o que, segundo a associação americana do setor, tornou o grão mais caro que o produzido na América Latina; as exportações americanas para a China caíram 50% em um ano.

Em setembro, EUA e China concordaram em reduzir tarifas sobre US$ 60 bilhões em mercadorias, mas a soja ficou de fora e manteve tarifa de 13%, contra 3% para a soja brasileira. A diferença de dez pontos preserva a competitividade do Brasil no curto prazo, segundo Patrícia Ellen, da consultoria Systemiq. A especialista em China Larissa Wachholz lembra que o volume de 25 milhões de toneladas está dentro do que os chineses já compravam dos EUA em anos anteriores; o risco, diz ela, seria a China ampliar as compras americanas além do acordado.

O tamanho da dependência

Desde 2017 o Brasil é o principal fornecedor de soja da China. Em 2016, os EUA respondiam por 41% da soja comprada pelos chineses, e o Brasil, por 45%. O país bateu recorde de exportações para a China em 2025 e, em 2026, já enviou quase 64 milhões de toneladas, segundo a Aprosoja. O presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, considera difícil que os EUA voltem a exportar mais de 30 milhões de toneladas ao mercado chinês e avalia que a posição brasileira está consolidada.

O alerta para o campo

Relatório da Systemiq indica que uma contração da demanda chinesa pode derrubar preços e receitas de exportação, com efeitos sobre a renda dos produtores, o valor das terras, o emprego rural e a infraestrutura de processamento. Os especialistas recomendam evitar ampliar a área plantada, investir no processamento do grão para agregar valor e buscar novos mercados, como a Índia, além de biocombustíveis. A projeção de queda de 25% é um cenário apresentado por especialistas, não um dado oficial da China.

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