Economia

Risco de recessão em 2027 cresce; Ibre-FGV simula PIB estagnado

Exercício preliminar do instituto indica que, com juros e dólar em alta, as atividades cíclicas recuariam 0,5% no próximo ano; Itaú cortou a previsão de crescimento para 0,5% e a inadimplência está em recorde, segundo a Serasa.

Parede de azulejos brancos com as letras douradas Ministério da Fazenda e a letra P, ao lado da fachada de vidro do bloco, em Brasília
Sede do Ministério da Fazenda, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em 27 de janeiro de 2023. Foto de arquivo: Pedro França/Agência Senado — CC BY 2.0. A imagem não registra a publicação da medida provisória. Origem da fotografia. Condição de uso.

A economia brasileira pode fechar 2027 estagnada, e uma recessão “não está descartada”, segundo projeções de instituições e bancos reunidas em reportagem publicada em 7 de novembro. Um exercício preliminar do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) indica que, se a piora atual das condições financeiras for mantida, com juros e dólar em alta, as atividades cíclicas recuariam 0,5% em 2027. Nesse cenário, mesmo com a agropecuária e a indústria extrativa crescendo 1%, o PIB ficaria estagnado.

As projeções de base, do Ibre-FGV, de consultorias e de bancos, ainda apontam expansão de cerca de 1% do PIB no próximo ano. O Itaú reduziu a estimativa de 2027 de 1,2% para 0,5% (veja a matéria sobre a revisão). A Fecomercio-SP fala abertamente em recessão, citando o “esgotamento do modelo de crescimento baseado no endividamento”, e o Safra afirma que o mercado vê risco maior de contração. O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que a recessão fica “crescentemente” possível e a compara a um “mini-2015”, ano em que o PIB caiu 3,8%.

O que pesa sobre a atividade

  • Condições financeiras: o Indicador de Condições Financeiras do Ibre-FGV atingiu patamar restritivo, com juros internacionais e juros reais domésticos entre 9,5% e 9,7% ao ano, o que deixa o impulso do crédito negativo.
  • Fim do suporte exógeno: entre 2023 e 2025, agropecuária e indústria extrativa responderam por cerca de um terço do aumento do valor adicionado; para 2027, a expectativa é de pouca contribuição desses setores, e o PIB fica mais dependente de comércio, indústria de transformação e serviços.
  • Endividamento das famílias: segundo a Serasa, o país tinha 84,2 milhões de inadimplentes em setembro, o maior número da série e 51,1% da população adulta. Cada inadimplente deve, em média, R$ 7.094, enquanto a renda mensal média é de R$ 3.790.
  • Renda e emprego: a renda disponível das famílias, que crescia 7,3% ao ano em termos reais entre 2021 e 2025, avançou 0,1% no acumulado de janeiro a agosto de 2026. O desemprego, projetado em 5,6% para 2026, deve subir para quase 7% em 2027, segundo as projeções citadas.

O papel do ajuste fiscal

A reportagem associa o aperto financeiro à indefinição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre como enfrentar a crise fiscal, que economistas ortodoxos apontam como raiz dos juros altos. Após o segundo turno, segundo a apuração, os juros de mercado subiram, o dólar disparou e a Bolsa caiu. O governo diz preparar um ajuste gradual (veja a matéria sobre o centro da meta fiscal), e o Tesouro projetou a dívida bruta em 83,7% do PIB em 2026 (veja o relatório de riscos fiscais).

Para Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre, haveria uma espécie de “purgatório” econômico mesmo com um ataque ao desequilíbrio das contas. Em sua avaliação, o excesso de gastos públicos e o endividamento privado poderiam ser digeridos sem recessão desde que um ajuste fiscal crível reduzisse os juros. Sem essa sinalização, ganha força o risco de crise de crédito. O ex-diretor do Banco Central José Júlio Senna diz que pode ser cedo para falar em recessão, mas que a hipótese não está descartada: a economia opera acima do potencial e o desemprego está baixo, “mas tudo perde gás rapidamente”.

O que é projeção e o que é dado

O número de 0,5% é de um exercício preliminar do Ibre-FGV, não de uma previsão oficial, e depende de a piora das condições financeiras persistir. Previsões de bancos e consultorias são estimativas e podem ser revistas; os dados de inadimplência, renda e emprego são os divulgados pelas instituições citadas. Não há, até a publicação, manifestação do Ministério da Fazenda sobre o risco de recessão em 2027 nas informações apuradas.

Foto de arquivo do Ministério da Fazenda, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília; a imagem não registra os fatos descritos.

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