Economia

Dólar e El Niño levam economistas a elevar projeções de inflação para 2027

Câmbio a R$ 5,447 e preços de alimentos pressionados pelo clima levam consultorias e bancos a rever o IPCA; a 4intelligence passou de 4,23% para 5% em 2027, segundo reportagem.

Torres de vidro escuro e fachada de concreto claro do edifício-sede do Banco Central do Brasil, vistas de baixo para cima, contra o céu azul
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, em fevereiro de 2015. Foto de arquivo: Jonas Pereira/Agência Senado — CC BY 2.0. A imagem não registra a alta do dólar nem as projeções de inflação. Origem da fotografia. Condição de uso.

O dólar mais alto depois da reeleição de Lula e os primeiros efeitos do El Niño sobre os alimentos levaram economistas a elevar as projeções para o IPCA, segundo a Folha de S.Paulo, em reportagem publicada no sábado (31). De acordo com o jornal, a moeda americana fechou a sexta-feira (30) a R$ 5,447, a maior cotação do ano, com alta de 9,2% na semana seguinte à eleição. Este portal leu a reportagem, mas não os relatórios das consultorias: as projeções abaixo são as que o texto cita.

O que mudou nas projeções

Fonte IPCA 2026 IPCA 2027
4intelligence (antes: 5,18% e 4,23%) 5,31% 5,00%
MB Associados 5,2% 4,5%
Daycoval 5,0% 4,2%
Focus, mediana de 26/10 (coletada antes da vitória de Lula) 5,19% 4,34%

A meta do Banco Central tem centro em 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual: o teto é 4,5%. A projeção da 4intelligence para 2027 fica acima dele; a da MB Associados o alcança. O economista-chefe da MB, Sergio Vale, disse à Folha que a inflação “começa a ficar preocupante também para 2027”. Rafael Cardoso, do Daycoval, afirmou que a estimativa do próximo ano pode subir, conforme a intensidade do El Niño, a pressão cambial, os custos do fim da escala 6×1 e o petróleo.

O que pressiona os preços

  • Câmbio: Fábio Romão, da 4intelligence, atribuiu a revisão sobretudo à mudança na curva do dólar, que afeta combustíveis, alimentos e bens duráveis. Ele considera menores os efeitos do fim da 6×1 e da reforma tributária.
  • Clima: segundo a reportagem, os alimentos já subiam por chuvas fortes no Sul e no Sudeste; Vale associa parte do quadro aos efeitos iniciais do El Niño.
  • Demanda: Vale cita medidas de estímulo do governo às vésperas da eleição, como o reajuste do Bolsa Família, anunciado 17 dias antes do primeiro turno.
  • Juros: Solange Srour, do UBS GWM, avalia que, sem ajuste fiscal crível, o dólar tende a persistir e o Banco Central pode ter de voltar a subir a Selic em 2027. Vale, por sua vez, vê espaço para o câmbio se acomodar após o susto, dependendo dos sinais do governo sobre as contas públicas e a montagem da equipe.

De onde a inflação partia

O IPCA-15 de outubro, do IBGE, desacelerou para 0,32%, mas a alimentação no domicílio subiu 1,01%, a maior variação para um mês de outubro desde 2021, com tomate (+24,54%), cebola (+13,63%), batata-inglesa (+10,96%) e arroz (+5,8%). O IPCA de outubro ainda não foi divulgado. O boletim Focus de 26/10 projetava Selic de 13,25% ao fim de 2026 e de 11,75% ao fim de 2027.

Câmbio oficial e ajuste fiscal

A reportagem usa o fechamento do dólar. Como referência oficial, a PTAX do Banco Central, taxa de venda calculada a partir de consultas ao longo do dia, foi de R$ 5,4212 em 30/10 e de R$ 5,0377 em 23/10, na consulta feita por este portal no domingo (1º). Os dois números medem coisas diferentes e não se comparam diretamente com os da Folha.

A Folha informa ainda que a extensão das medidas de ajuste fiscal abriu um impasse dentro do governo, e que Lula demonstra resistência a ações mais robustas por receio de configurar “estelionato eleitoral”. O tema aparece nas falas de Rafael Fonteles e de Guilherme Boulos, já noticiadas aqui.

O que vem

As revisões seguem a pesquisa da BGC Liquidez, que já apontava IPCA de 5,3% em 2027, e o corte de projeções do Itaú. A próxima edição do Focus, prevista para terça-feira (3), mostrará se as medianas do mercado incorporam o novo cenário.

Últimas

Em perspectiva

Mais notícias