Economia

Lara Resende nega contato com Lula e diz que notícia foi plantada

Economista autor da proposta de um conselho fiscal e monetário diz que não vai para o governo e que a tese sobre juros altos não implica tabelar a Selic.

Parte superior do edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, sob céu claro
Edifício-sede do Banco Central, em Brasília, em 2010. Foto de arquivo: Banco Central do Brasil — CC BY 2.0. A imagem não registra o debate atual sobre juros. Origem da fotografia. Condição de uso.

O economista André Lara Resende negou, em entrevista concedida nesta quinta-feira (5), ter conversado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou ter reunião marcada com ele para apresentar sua proposta de política monetária e fiscal. Disse que a notícia de um encontro foi “plantada obviamente para queimar a proposta” ou prejudicar alguém que a defendeu, e afirmou que não quer ir para o governo, o que, segundo ele, “todo mundo sabe”, inclusive Lula.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já havia negado, nos dias anteriores, que o economista tivesse encontro marcado com o presidente e que a equipe econômica discutisse tabelamento de juros. Lara Resende, ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central, é um dos formuladores do Plano Real.

O que propõe

O núcleo do artigo, publicado em setembro na newsletter do economista, é a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que atuaria ao lado do Banco Central para fixar metas de longo prazo para as contas públicas e para a taxa básica de juros. Para Lara Resende, o conselho serviria sobretudo para “coordenar as expectativas” sobre juros e política fiscal. Como o Banco Central não tem autonomia para criar conselhos, apenas comitês consultivos, a ideia dependeria de aprovação do Congresso.

A tese de partida é que o déficit das contas públicas brasileiras decorre mais do custo da dívida, ou seja, dos juros altos, do que dos gastos primários. Em 2025, o déficit citado por ele foi de 0,48% do PIB, segundo o Tesouro Nacional. “Juros altos é um fator concentrador de renda e riqueza”, afirmou, ao chamar o pagamento de juros aos detentores da dívida de uma “bolsa-rentista”. Ele ressalvou que isso não significa dizer que o país não tenha problemas com gastos e tributação.

A polêmica sobre a queda da Selic

  • Trajetória de 12 meses: o artigo prevê que o Banco Central anunciaria uma redução gradual da Selic ao longo de cerca de 12 meses, até perto de 7,5% ao ano (crescimento nominal potencial mais um spread transitório de 2%). Parte do setor financeiro e da oposição leu o trecho como tentativa de baixar os juros à força e esvaziar a autonomia do Banco Central.
  • Resposta do autor: ele diz ter “longa tradição de ser contra tabelamentos”, que os números são “meramente indicativos” e que ritmo e trajetória deveriam ser avaliados na implantação.
  • Críticas de outros economistas: mesmo economistas mais à esquerda apontaram risco de fuga de capitais e desvalorização do real, com efeito sobre inflação e salários. O economista americano John Cochrane, da Hoover Institution, qualificou a proposta de “sofisticada”, mas disse que ela se apega mais a preceitos teóricos do que práticos.

Como o texto chegou ao centro do debate

O artigo ganhou repercussão depois que a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) o compartilhou nas redes na quarta-feira (28/10), chamando-o de “fundamental para enfrentar a ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira”. Desde então, parte do mercado passou a apostar que o economista se encontraria com Lula, que analisa nomes para a futura equipe econômica, e que a proposta seria levada adiante. O Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano nesta semana, interrompendo o ciclo de cortes iniciado no primeiro semestre, quando ela estava em 15%.

Outros desdobramentos do debate estão na cobertura do “ajuste gradual” e da negativa de tabelamento pelo ministro da Fazenda, na crítica de Maílson da Nóbrega a um corte “artificial” da Selic e no resultado da reunião de Lula com a equipe econômica.

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