A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro reverberou na oposição argentina como fracasso pessoal do presidente Javier Milei e como lição para derrotá-lo na eleição de outubro de 2027, segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada neste domingo (1º). A virada do petista no segundo turno ganhou o nome de Lulazo nas manchetes de países vizinhos.
O que a oposição argentina faz
Menos de duas horas depois de Lula ser matematicamente eleito, foi criado o canal de WhatsApp Exército do Peronismo, inspirado na iniciativa do deputado André Janones (Rede-MG) de se comunicar com apoiadores de Lula. Em uma semana, o núcleo do PT na Argentina recebeu ao menos dez pedidos de conversas e entrevistas para compartilhar aprendizados da campanha, de acordo com a Folha.
O deputado Martín Lousteau, da União Cívica Radical, disse ao jornal que a vitória de Lula mostra a necessidade de organização e de unir esforços. Jorge Kreyness, secretário-geral do Partido Comunista da Argentina, afirmou que o resultado pode marcar mudança de tendência na região.
Milei apostou na candidatura de Flávio
Para a Folha, a eleição ganha outra dimensão por ocorrer após um giro à direita na América Latina, com as vitórias de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e de Keiko Fujimori, no Peru, tendência batizada de onda azul, que deixou Brasil, México e Uruguai praticamente isolados entre governos de centro-esquerda. Ainda assim, a vitória de Lula não soou como derrota local em nenhum outro país; o presidente argentino, porém, colocou todas as fichas na eleição de Flávio, escreve o jornal.
Milei participou presencialmente do lançamento da campanha do candidato, no fim de julho, em São Paulo, e fez ataques pessoais a Lula no evento, episódio que, segundo a reportagem, escalou semanas depois até o rebaixamento inédito das relações entre os dois países. O deputado Gustavo Fernando López, fundador do partido Forja, disse que “assim como o triunfo foi extraordinário, a derrota foi catastrófica”. Já Kreyness atribuiu parte do efeito às atitudes de Milei durante a visita ao Brasil e ao receio do eleitorado com fechamento de fábricas e privatizações; ele próprio disse não saber medir o impacto.
O que Milei tem a mostrar
Segundo a Folha, a inflação mensal na Argentina caiu de 25,5% em dezembro de 2023, quando Milei assumiu, para 1,9% em setembro de 2026, mas o presidente enfrenta dificuldades para reduzi-la mais, e o número de empresas caiu em mais de 30 mil, a maior queda em 24 anos, de acordo com o Monitor Mensal de Empresas, da Fundação Fundar. Na campanha, Lula usou a Argentina contra Flávio no debate da Band, enquanto bolsonaristas destacavam a queda da inflação sob Milei.
Relação com o Brasil depois da eleição
A reportagem diz que as rusgas não cessaram: o governo argentino foi o único da América Latina a não reconhecer a vitória de Lula, e o porta-voz Adrian Ravier limitou-se a dizer que o governo tomou ciência do resultado. A Folha afirma ainda que o governo Milei mergulhou o país em tempestade política ao se envolver na saída de Flávio rumo aos Estados Unidos, na madrugada de quarta-feira (28). Sobre as versões de jornais argentinos e americanos a esse respeito, veja a matéria sobre a fuga de Flávio.
O que falta saber: o impacto real da eleição brasileira sobre o voto argentino, que depende de fatores locais como a economia, e a posição oficial do governo Milei sobre o resultado, que até agora se resume à manifestação do porta-voz.





















