EUA

Congresso democrata fiscalizaria tarifas e agenda de Trump na América Latina

Analistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem que uma maioria democrata teria mais poder para fiscalizar tarifas, segurança e política externa, mas Trump manteria o veto e os decretos; o governo Lula terá de reconstruir pontes.

Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva sentados em poltronas durante reunião, com as bandeiras dos Estados Unidos e do Brasil ao fundo
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião na cúpula da Asean, em Kuala Lumpur, em 26 de outubro de 2025 (recorte). Foto de arquivo: Casa Branca — domínio público. A imagem não registra as eleições de meio de mandato. Origem da fotografia.

Uma vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos EUA, nesta terça (3), daria ao Congresso mais poder para fiscalizar as tarifas, a política externa e a agenda de segurança de Donald Trump para a América Latina, o que pode mudar o ambiente para o governo Lula, segundo reportagem da BBC News Brasil que ouviu analistas. As pesquisas indicam chance de maioria democrata na Câmara e, talvez, no Senado, no que a reportagem chama de “onda azul”.

O ponto de partida

Desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, a relação com o Brasil atravessa um período de tensão, segundo a BBC. Trump impôs um “tarifaço” sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades, em resposta ao que descreveu como perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro. A embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, está com o visto revogado desde agosto; continua autorizada a atuar, mas precisaria de novo visto se deixasse o país. Lula criticou as medidas na campanha e apostou na defesa da soberania.

O que os democratas poderiam fazer

  • Tarifas: a Constituição dá ao Congresso a prerrogativa de regular o comércio exterior e aplicar tarifas. Trump usou uma lei de poderes econômicos de emergência (IEEPA) para impor taxas a vários países, inclusive o Brasil; depois que a Suprema Corte derrubou esse uso, recorreu a outras bases legais para manter a política tarifária. Com maioria na Câmara, os democratas devem examinar essas taxas e o impacto delas na economia dos EUA, segundo a reportagem.
  • América Latina e segurança: desde o ano passado, os EUA designaram mais de 20 cartéis e grupos criminosos da região como Organizações Terroristas Estrangeiras, entre eles o PCC e o Comando Vermelho, classificação apoiada por Flávio Bolsonaro e contrária à posição do governo Lula. Há o temor de que o combate ao crime organizado sirva de pretexto para uma agenda mais ampla, com propostas de militarização. No início do ano, Trump lançou o Escudo das Américas, aliança de 15 países, em sua maioria de líderes de direita aliados dele, da qual o Brasil não faz parte.
  • Investigações e guerra: com a maioria, os democratas comandariam comitês como o de Serviços Armados. A reportagem cita audiências e investigações esperadas sobre os ataques militares a pequenas embarcações no Caribe e no Pacífico, que mataram mais de 200 pessoas sob a alegação, sem evidências, de que eram narcoterroristas, e sobre a política para a Venezuela, onde uma operação em janeiro atacou Caracas para capturar Nicolás Maduro, levado aos EUA.
  • Senado: uma maioria democrata poderia barrar indicações de Trump a cargos de gabinete, embaixadas e Judiciário, inclusive a eventuais vagas na Suprema Corte, e teria controle sobre o orçamento e poder para conduzir investigações, inclusive abrir processos de impeachment.

Os limites

Mesmo com o Legislativo, a oposição enfrentaria limites. Trump mantém o poder de veto e já disse que, se os republicanos perderem o Congresso, pretende barrar as propostas da oposição. Segundo a reportagem, ele também poderia se recusar a cumprir intimações e atrasar investigações até o fim do mandato. A Constituição impede um terceiro mandato, e o presidente passaria a ser o que a política americana chama de “pato manco” (lame duck).

O que dizem os analistas

  • Lucas de Souza Martins, historiador e pesquisador da Universidade Temple: Lula sempre foi pragmático nas relações com os EUA e manteve abertos os canais institucionais. Para ele, o secretário de Estado Marco Rubio, com aspirações presidenciais, lidera uma ala ideológica que disputa a atenção de Trump sobre o Brasil com um grupo mais pragmático; democratas fariam oposição específica na política externa, porque ali está um potencial adversário em 2028, e, com Trump e Rubio enfraquecidos, a América Latina tenderia a perder peso como prioridade.
  • Michael Traugott, cientista político da Universidade de Michigan: uma maioria democrata na Câmara significaria mais audiências e possivelmente investigações, e o Congresso tentaria impor limites orçamentários a políticas de Trump. O efeito é incerto, porque o presidente tende a ignorar questionamentos e a recorrer a decretos.
  • Kristina Rosales, consultora em relações comerciais entre Brasil e EUA e ex-porta-voz do Departamento de Estado: a Câmara teria muito mais capacidade de fiscalizar o Executivo, mas, se pressionado, Trump poderia recorrer a mais instrumentos executivos; na política tarifária, vê um “cenário complicado de negociação”. Para ela, o governo Lula terá de buscar melhor relação com o governo Trump e, ao mesmo tempo, construir pontes com novos atores que se preparam para 2028.

Para ler também

A cobertura geral está em Midterms de terça (3). Economistas avaliam o efeito possível no dólar e nos juros; Washington deve apresentar uma proposta sobre tarifas ao Brasil em novembro, segundo reportagem; e analistas veem que Lula freia a onda de direita na região.

Texto baseado em reportagem da BBC News Brasil publicada às 7h35 de 2 de novembro; as opiniões são dos analistas citados, e os números e fatos são os informados pela BBC, sem conferência em fonte oficial.

Últimas

Em perspectiva

Mais notícias