Uma vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos EUA, nesta terça (3), daria ao Congresso mais poder para fiscalizar as tarifas, a política externa e a agenda de segurança de Donald Trump para a América Latina, o que pode mudar o ambiente para o governo Lula, segundo reportagem da BBC News Brasil que ouviu analistas. As pesquisas indicam chance de maioria democrata na Câmara e, talvez, no Senado, no que a reportagem chama de “onda azul”.
O ponto de partida
Desde que Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, a relação com o Brasil atravessa um período de tensão, segundo a BBC. Trump impôs um “tarifaço” sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades, em resposta ao que descreveu como perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio Bolsonaro. A embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, está com o visto revogado desde agosto; continua autorizada a atuar, mas precisaria de novo visto se deixasse o país. Lula criticou as medidas na campanha e apostou na defesa da soberania.
O que os democratas poderiam fazer
- Tarifas: a Constituição dá ao Congresso a prerrogativa de regular o comércio exterior e aplicar tarifas. Trump usou uma lei de poderes econômicos de emergência (IEEPA) para impor taxas a vários países, inclusive o Brasil; depois que a Suprema Corte derrubou esse uso, recorreu a outras bases legais para manter a política tarifária. Com maioria na Câmara, os democratas devem examinar essas taxas e o impacto delas na economia dos EUA, segundo a reportagem.
- América Latina e segurança: desde o ano passado, os EUA designaram mais de 20 cartéis e grupos criminosos da região como Organizações Terroristas Estrangeiras, entre eles o PCC e o Comando Vermelho, classificação apoiada por Flávio Bolsonaro e contrária à posição do governo Lula. Há o temor de que o combate ao crime organizado sirva de pretexto para uma agenda mais ampla, com propostas de militarização. No início do ano, Trump lançou o Escudo das Américas, aliança de 15 países, em sua maioria de líderes de direita aliados dele, da qual o Brasil não faz parte.
- Investigações e guerra: com a maioria, os democratas comandariam comitês como o de Serviços Armados. A reportagem cita audiências e investigações esperadas sobre os ataques militares a pequenas embarcações no Caribe e no Pacífico, que mataram mais de 200 pessoas sob a alegação, sem evidências, de que eram narcoterroristas, e sobre a política para a Venezuela, onde uma operação em janeiro atacou Caracas para capturar Nicolás Maduro, levado aos EUA.
- Senado: uma maioria democrata poderia barrar indicações de Trump a cargos de gabinete, embaixadas e Judiciário, inclusive a eventuais vagas na Suprema Corte, e teria controle sobre o orçamento e poder para conduzir investigações, inclusive abrir processos de impeachment.
Os limites
Mesmo com o Legislativo, a oposição enfrentaria limites. Trump mantém o poder de veto e já disse que, se os republicanos perderem o Congresso, pretende barrar as propostas da oposição. Segundo a reportagem, ele também poderia se recusar a cumprir intimações e atrasar investigações até o fim do mandato. A Constituição impede um terceiro mandato, e o presidente passaria a ser o que a política americana chama de “pato manco” (lame duck).
O que dizem os analistas
- Lucas de Souza Martins, historiador e pesquisador da Universidade Temple: Lula sempre foi pragmático nas relações com os EUA e manteve abertos os canais institucionais. Para ele, o secretário de Estado Marco Rubio, com aspirações presidenciais, lidera uma ala ideológica que disputa a atenção de Trump sobre o Brasil com um grupo mais pragmático; democratas fariam oposição específica na política externa, porque ali está um potencial adversário em 2028, e, com Trump e Rubio enfraquecidos, a América Latina tenderia a perder peso como prioridade.
- Michael Traugott, cientista político da Universidade de Michigan: uma maioria democrata na Câmara significaria mais audiências e possivelmente investigações, e o Congresso tentaria impor limites orçamentários a políticas de Trump. O efeito é incerto, porque o presidente tende a ignorar questionamentos e a recorrer a decretos.
- Kristina Rosales, consultora em relações comerciais entre Brasil e EUA e ex-porta-voz do Departamento de Estado: a Câmara teria muito mais capacidade de fiscalizar o Executivo, mas, se pressionado, Trump poderia recorrer a mais instrumentos executivos; na política tarifária, vê um “cenário complicado de negociação”. Para ela, o governo Lula terá de buscar melhor relação com o governo Trump e, ao mesmo tempo, construir pontes com novos atores que se preparam para 2028.
Para ler também
A cobertura geral está em Midterms de terça (3). Economistas avaliam o efeito possível no dólar e nos juros; Washington deve apresentar uma proposta sobre tarifas ao Brasil em novembro, segundo reportagem; e analistas veem que Lula freia a onda de direita na região.
Texto baseado em reportagem da BBC News Brasil publicada às 7h35 de 2 de novembro; as opiniões são dos analistas citados, e os números e fatos são os informados pela BBC, sem conferência em fonte oficial.






















