Casos em que médicos são acusados de expor colegas por preferência eleitoral e de sugerir boicote a pacientes que votaram no PT foram reunidos em reportagem da BBC News Brasil publicada na sexta-feira (30). Segundo o texto, os episódios, relatados em Sergipe e na Bahia, ocorreram depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os relatos vêm de entrevistas e de capturas de tela recebidas pela reportagem; este portal não teve acesso a esse material.
Lista em grupo de anestesiologistas, em Sergipe
Um anestesiologista, que pediu para não ser identificado, contou à BBC que foi incluído em uma lista com 15 nomes de médicos classificados como lulistas, esquerdistas e petistas, enviada em um grupo privado de WhatsApp que reúne cerca de um terço dos médicos da especialidade no estado. Ao lado de alguns nomes havia bandeiras do movimento LGBTQIA+.
Ele diz que procurou o colega apontado por outros integrantes como autor da publicação e que, segundo seu relato, a conversa terminou em gritos e ofensas; na versão que ouviu, a lista seria apenas uma enquete informal. A publicação teria sido apagada depois que ele pediu esclarecimentos em um grupo institucional usado para escalas e plantões. Segundo o médico, novas ligações incluíram ofensas homofóbicas; ele procurou o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis da Polícia Civil e solicitou medida protetiva. Nesta semana, formalizou denúncia na cooperativa responsável pelas escalas, que teria atendido ao pedido para que os dois profissionais não sejam escalados juntos enquanto o caso é apurado. Ele avalia, com seu advogado, denunciar o caso ao Conselho Regional de Medicina.
A BBC procurou a cooperativa e o Conselho Regional de Medicina de Sergipe, mas não recebeu resposta, e não conseguiu contato com o médico apontado como autor da lista. A versão dele, portanto, não consta da reportagem.
Postagem sobre eleitores do PT, na Bahia
A reportagem também recebeu denúncia sobre uma cardiologista que atua na Bahia e teria compartilhado, nos Stories do Instagram, uma publicação de uma ex-candidata a vereadora e primeira suplente do PL. O texto original dizia, entre outras frases, “Não ajude petista na fila da regulação”, e o mesmo tipo de recomendação para pedidos de emprego, remédio ou dinheiro. A médica teria acrescentado que toda escolha traz consequências. Colegas que viram o post disseram à BBC que a menção à regulação e ao acesso a medicamentos pode ser lida como incentivo à discriminação por convicção política.
Um grupo de médicos fez denúncia formal ao Conselho Regional de Medicina da Bahia e informou a Secretaria da Saúde do estado. O conselho não respondeu à BBC; a secretaria disse que até o momento não foram formalizadas denúncias sobre profissionais de sua rede de assistência.
Em nota publicada no perfil da clínica onde atua, em Lauro de Freitas, a cardiologista reconheceu que o compartilhamento foi um equívoco e afirmou não defender que ninguém seja privado de atendimento, medicamentos ou cuidados por posicionamento político. A clínica disse não ter lado político e que opiniões em perfis pessoais não representam a instituição. A autora do post original disse à BBC que não conhece a médica nem controla quem compartilha suas publicações, e explicou que a menção à fila de regulação se referia a pedidos particulares de favorecimento fora dos procedimentos legais, reconhecendo que a redação não deixou isso explícito.
O que dizem as regras da medicina
Segundo a reportagem, o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelece no Código de Ética Médica que o atendimento em urgência e emergência é obrigatório, e a Resolução 2.217/2018 prevê que a medicina seja exercida sem discriminação de nenhuma natureza. A orientação a quem se sentir prejudicado é reunir provas, como mensagens, áudios, receitas ou prontuários, e formalizar denúncia aos conselhos regionais; conforme o caso, também é possível recorrer ao Ministério Público, à Defensoria Pública ou à Justiça.
O que não está comprovado
Os casos descritos são relatos e prints citados pela BBC. Nenhum conselho ou órgão público confirmou, nas fontes lidas, a abertura de procedimento, e o trecho lido da reportagem não descreve paciente que tenha tido atendimento negado: fala em mensagens que sugerem tratamento diferenciado. Os médicos citados não são identificados.
Outro caso de boicote ligado à disputa política foi tratado nesta semana em matéria sobre o humorista que relata ameaças após ironia de Nikolas Ferreira.






















