Uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária entrou no radar do presidente Lula (PT) e já causa apreensão no mercado financeiro, segundo a Folha de S.Paulo, em texto publicado neste domingo (1º). Dois integrantes da equipe econômica disseram ao jornal que não há previsão formal de encontro entre os dois e que o presidente pretende ouvir diversas opiniões sobre política monetária e fiscal.
O que Lara Resende propõe
Em artigo publicado no fim de setembro, o economista retomou o argumento de que o problema fiscal do país está nos juros, e não no gasto primário. Pelos números que ele apresenta, e que a Folha reproduz, a dívida bruta está em 82,5% do PIB (cerca de R$ 10,9 trilhões) e o custo médio dessa dívida chegou a 12,68% ao ano, o que a faria crescer cerca de R$ 1,4 trilhão por ano, ou 10,5% do PIB, antes de qualquer déficit primário. Ele cita projeção do FMI de resultado primário de -0,4% do PIB.
A saída, segundo ele, seria um novo regime que combina as duas políticas, com a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas em conjunto para um horizonte de quatro a cinco anos. O Banco Central se comprometeria a manter a Selic entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (cerca de 5,5%). Para começar, a taxa, hoje em 13,75% ao ano, cairia de forma gradual ao longo de 12 meses até 7,5%. O próprio economista admite que o corte pode causar um repique de inflação no início, sobretudo pelo câmbio, e prevê o uso das reservas do BC, estimadas em US$ 350 bilhões, para conter a depreciação. A Folha lembra que a tese existe, em formatos variados, há mais de 30 anos e que Lara Resende já a havia sugerido em 2017.
O que se sabe sobre o contato com Lula
De acordo com a Folha, a proposta poderia ser apresentada a Lula em encontro na semana que vem, informação atribuída pelo jornal ao colunista Lauro Jardim, de O Globo; este portal não leu a coluna. A equipe econômica ouvida pela Folha diz que vários economistas se colocaram à disposição do presidente e que Lara Resende seria apenas um deles. O economista foi procurado por WhatsApp na tarde de domingo e não respondeu até a publicação. A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) escreveu no X, também neste domingo, que o artigo dele é fundamental para enfrentar o que chamou de ofensiva contra a política fiscal brasileira, o que a Folha lê como sinal de aproximação da tese com a cúpula do PT.
A reação do mercado
Dois gestores de grandes bancos, ouvidos sob reserva pela Folha, disseram que a ideia causou mal-estar. Para eles, a tese parte de um diagnóstico correto, mas chega a uma conclusão equivocada: o juro alto seria consequência da falta de credibilidade fiscal, e não sua causa, e baixá-lo por decisão política, sem âncora, levaria à chamada dominância fiscal, em que o descontrole das contas se sobrepõe à política monetária. Também afirmam que o conselho acabaria com a autonomia do Banco Central.
O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, lembrou que algo parecido foi tentado em 2012 e, nas palavras dele, “foi um desastre”, com a inflação subindo ao teto de 6,5%. O pesquisador do Insper Marcos Mendes observou que a proposta pressupõe um ajuste fiscal estrutural, justamente a parte difícil.
Por que o tema pesa agora
A discussão ocorre quando aliados de Lula defendem antecipar a definição da equipe econômica do quarto mandato, para dar sinais ao mercado depois da alta do dólar na semana seguinte ao segundo turno. A Folha registra que equilibrar a dívida exigiria ajuste de ao menos R$ 250 bilhões em quatro anos. Sobre as revisões de projeções após a eleição, veja também o ajuste do Itaú para IPCA e PIB de 2027.
O que falta saber: se haverá encontro entre Lula e o economista, se o governo tratará a tese como proposta e quem comandará a equipe econômica. Nada disso está decidido nas fontes consultadas.





















