Economia

Proposta de Lara Resende para limitar a Selic entra no radar de Lula

Economista, um dos formuladores do Plano Real, propõe conselho fiscal e monetário e queda da taxa a 7,5% em 12 meses; gestores ouvidos sob reserva veem risco para a autonomia do BC.

Torres de vidro escuro com pilar central de concreto claro da sede do Banco Central do Brasil, ao entardecer

Sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, em outubro de 2008. Foto de arquivo: Paulo Rená da Silva Santarém — CC BY-SA 2.0. A imagem não registra a proposta de Lara Resende nem a reação do mercado. Origem da fotografia. Condição de uso.

Uma proposta do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para reduzir a taxa Selic por meio de um novo arranjo entre as políticas fiscal e monetária entrou no radar do presidente Lula (PT) e já causa apreensão no mercado financeiro, segundo a Folha de S.Paulo, em texto publicado neste domingo (1º). Dois integrantes da equipe econômica disseram ao jornal que não há previsão formal de encontro entre os dois e que o presidente pretende ouvir diversas opiniões sobre política monetária e fiscal.

O que Lara Resende propõe

Em artigo publicado no fim de setembro, o economista retomou o argumento de que o problema fiscal do país está nos juros, e não no gasto primário. Pelos números que ele apresenta, e que a Folha reproduz, a dívida bruta está em 82,5% do PIB (cerca de R$ 10,9 trilhões) e o custo médio dessa dívida chegou a 12,68% ao ano, o que a faria crescer cerca de R$ 1,4 trilhão por ano, ou 10,5% do PIB, antes de qualquer déficit primário. Ele cita projeção do FMI de resultado primário de -0,4% do PIB.

A saída, segundo ele, seria um novo regime que combina as duas políticas, com a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas em conjunto para um horizonte de quatro a cinco anos. O Banco Central se comprometeria a manter a Selic entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (cerca de 5,5%). Para começar, a taxa, hoje em 13,75% ao ano, cairia de forma gradual ao longo de 12 meses até 7,5%. O próprio economista admite que o corte pode causar um repique de inflação no início, sobretudo pelo câmbio, e prevê o uso das reservas do BC, estimadas em US$ 350 bilhões, para conter a depreciação. A Folha lembra que a tese existe, em formatos variados, há mais de 30 anos e que Lara Resende já a havia sugerido em 2017.

O que se sabe sobre o contato com Lula

De acordo com a Folha, a proposta poderia ser apresentada a Lula em encontro na semana que vem, informação atribuída pelo jornal ao colunista Lauro Jardim, de O Globo; este portal não leu a coluna. A equipe econômica ouvida pela Folha diz que vários economistas se colocaram à disposição do presidente e que Lara Resende seria apenas um deles. O economista foi procurado por WhatsApp na tarde de domingo e não respondeu até a publicação. A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) escreveu no X, também neste domingo, que o artigo dele é fundamental para enfrentar o que chamou de ofensiva contra a política fiscal brasileira, o que a Folha lê como sinal de aproximação da tese com a cúpula do PT.

A reação do mercado

Dois gestores de grandes bancos, ouvidos sob reserva pela Folha, disseram que a ideia causou mal-estar. Para eles, a tese parte de um diagnóstico correto, mas chega a uma conclusão equivocada: o juro alto seria consequência da falta de credibilidade fiscal, e não sua causa, e baixá-lo por decisão política, sem âncora, levaria à chamada dominância fiscal, em que o descontrole das contas se sobrepõe à política monetária. Também afirmam que o conselho acabaria com a autonomia do Banco Central.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, lembrou que algo parecido foi tentado em 2012 e, nas palavras dele, “foi um desastre”, com a inflação subindo ao teto de 6,5%. O pesquisador do Insper Marcos Mendes observou que a proposta pressupõe um ajuste fiscal estrutural, justamente a parte difícil.

Por que o tema pesa agora

A discussão ocorre quando aliados de Lula defendem antecipar a definição da equipe econômica do quarto mandato, para dar sinais ao mercado depois da alta do dólar na semana seguinte ao segundo turno. A Folha registra que equilibrar a dívida exigiria ajuste de ao menos R$ 250 bilhões em quatro anos. Sobre as revisões de projeções após a eleição, veja também o ajuste do Itaú para IPCA e PIB de 2027.

O que falta saber: se haverá encontro entre Lula e o economista, se o governo tratará a tese como proposta e quem comandará a equipe econômica. Nada disso está decidido nas fontes consultadas.

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