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Tarifa zero nos fins de semana: governo prevê R$ 12 bi; setor vê custo maior

Ministério das Cidades diz que a verba da PEC cobre a gratuidade aos sábados, domingos e feriados e até sobra; empresas de ônibus estimam R$ 17 bi só nos ônibus, e economista da XP vê risco de o Tesouro pôr mais dinheiro.

Ônibus municipal amarelo e cinza da SPTrans, da empresa Metrópole Paulista, parado em uma via de São Paulo sob uma passarela metálica

Ônibus do sistema municipal da SPTrans em São Paulo, em 25 de março de 2026. Foto de arquivo: MacGyver Santista/Wikimedia Commons — CC0. A imagem não registra a circulação de ônibus no dia do segundo turno. Origem da fotografia. Condição de uso.

Os cerca de R$ 12 bilhões que o governo Lula pretende destinar ao transporte público gratuito aos sábados, domingos e feriados podem não bastar para bancar a medida. O Ministério das Cidades afirma que o valor cobre os custos da gratuidade; empresas de ônibus e economistas do mercado financeiro calculam que seriam necessários mais recursos.

De onde vem o dinheiro

A proposta de emenda à Constituição (PEC) foi enviada ao Congresso em 21 de outubro, como o OsPoderes noticiou. Pelo texto, o governo destinaria 26,8% das emendas parlamentares de execução obrigatória ao financiamento da gratuidade no transporte coletivo urbano. Sobre os R$ 44,8 bilhões previstos para 2027 nessas emendas, o percentual dá cerca de R$ 12 bilhões. A aprovação está entre as prioridades do governo até o fim do ano.

O governo sustenta que a medida não aumenta a despesa primária nem afeta a meta fiscal, porque apenas redireciona dinheiro que já estava previsto para emendas.

A conta do governo

Giancarlo Moreira Gama, assessor especial da Secretaria Nacional de Mobilidade Urbana e coordenador dos estudos de tarifa zero na pasta, diz que a estimativa do ministério para os fins de semana chegou a R$ 11 bilhões e que há, na avaliação da equipe, até folga. O cálculo foi feito com o Ipea, em estudo que deve ser publicado em novembro, a partir de uma amostra de cem cidades. Considera a quilometragem rodada nos fins de semana, menor que nos dias úteis. Segundo Gama, o custo anual de operar todo o sistema, em todos os dias, fica perto de R$ 70 bilhões.

As contas do setor e do mercado

  • Empresas de ônibus (NTU): Marcos Bicalho, diretor de gestão da associação, estima cerca de R$ 17 bilhões por ano só para os ônibus e R$ 20,8 bilhões com metrôs e trens. O cálculo parte de um movimento de cerca de 45% do de um dia útil aos domingos e 70% aos sábados, mais 20% de oferta extra, porque a demanda tende a crescer com a gratuidade. Pela conta da entidade, o sistema todo custa cerca de R$ 90 bilhões por ano e o aporte federal cobriria de 13% a 14%. Bicalho ressalva que os números são aproximados, porque o país não tem base nacional de dados sobre o transporte coletivo, e defende a proposta: “um primeiro passo”.
  • Mercado financeiro: o economista Tiago Sbardelotto, da XP, avalia que os R$ 12 bilhões cobririam apenas os ônibus urbanos nos fins de semana e faz estimativa preliminar de R$ 16 bilhões para todo o transporte coletivo. Para ele, há risco relevante de o Tesouro precisar destinar recursos adicionais, e os custos podem subir acima da inflação com combustível, mão de obra e manutenção.

O que acontece se o repasse não bastar

Bicalho afirma que, nas cidades em que o repasse federal for insuficiente, as prefeituras teriam duas saídas: reduzir a oferta de ônibus, com possível piora do serviço, ou complementar os recursos com subsídios locais. O Ministério das Cidades está implantando um sistema nacional de informações sobre mobilidade urbana.

A PEC ainda tramita no Congresso e, por isso, as estimativas acima são projeções de cada parte, não custos apurados. O estudo do Ipea, que pode servir de base para o debate, não foi divulgado até a publicação desta matéria.

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