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Ueno e Master: o que as duas crises bancárias têm em comum e no que diferem

Exposição de dinheiro público, crescimento rápido e proximidade com a política aparecem nos dois casos; a escala do Ueno, com cerca de 3 milhões de clientes, e a ligação direta com o presidente paraguaio são diferenças apontadas por analistas.

Montagem com duas fotos: à esquerda, o Palácio de los López, em Assunção; à direita, parlamentares em entrevista na abertura da CPMI do Banco Master, no Senado.
Montagem do OsPoderes com duas fotos de arquivo: Palácio de los López, em Assunção (Stefano Vigorelli, 2010, CC0), e abertura da CPMI do Banco Master, no Senado, em 3/2/2026 (Senado Federal/Agência Senado, CC BY-SA 4.0). As imagens não registram o fato noticiado.

A liquidação do Ueno Bank, que derrubou o presidente do Paraguai, Santiago Peña, levou a comparações com o caso do Banco Master no Brasil. Analistas ouvidos em reportagem publicada neste sábado (7) veem muitos pontos de contato, mas também diferenças relevantes, sobretudo na escala e na proximidade do banco com o chefe de Estado.

O que os casos têm em comum

Para Thiago Amâncio, da consultoria Control Risks, há “impressionante semelhança”: nos dois casos houve exposição relevante de recursos públicos, inclusive da previdência, crescimento muito rápido apoiado em ativos frágeis e relações próximas com o mundo político.

  • Dinheiro público: o Ueno administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, entre eles fundos do Instituto de Previdência Social (IPS). No Brasil, regimes próprios de previdência de estados e municípios aplicaram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos do Master, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
  • Vínculos políticos: Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025, e o então presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, também comandou o banco antes de assumir o cargo. No Brasil, o controlador do Master, Daniel Vorcaro, construiu uma rede de contatos que inclui políticos, integrantes do governo e autoridades do Judiciário; o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo de busca e apreensão na operação Compliance Zero.
  • Fiscalização: o analista Luis Miguel Santacreu, da Austin Ratings, aponta relações próximas entre instituições privadas e os bancos centrais. No Brasil, as investigações indicam que ex-dirigentes do Banco Central prestavam consultoria a Vorcaro; no Paraguai, a indicação de Carvallo levanta suspeita de leniência, diante de sinais de falta de liquidez desde pelo menos junho.

Onde diferem

A diferença central é a dimensão. O Ueno nasceu em 2021, quando o Grupo Vázquez comprou a Financiera El Comercio, ganhou autorização para operar como banco em novembro de 2023 e, em três anos, chegou a cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% da população adulta, segundo dados do próprio banco. Um banco do tamanho do Ueno no Brasil teria provocado uma crise financeira, e não só política, avalia Amâncio.

O professor Alexandre Jorge Chaia, do Insper, lembra que o modelo também era outro: o Ueno era um banco de varejo, que cresceu com abertura digital de contas, cartão de crédito e devolução de parte das compras; o Master captou investidores com CDBs de remuneração muito acima da média e comprou ativos de baixa liquidez. O Master levou seis anos para crescer e nunca teve relevância sistêmica comparável.

No caso brasileiro, Vorcaro foi preso em novembro de 2025, solto onze dias depois e detido novamente em março de 2026, no âmbito das investigações sobre suspeita de fraude financeira, depois de o Banco Central barrar a venda do Master ao BRB. As investigações atingiram ainda menções a ministros do Supremo, o que não significa, por si só, suspeita de crime.

O que ainda está aberto

  • No Paraguai, a Justiça ainda define as acusações contra Peña; promotores falam em possível tráfico de influência.
  • As comparações são de analistas, não de autoridades, e não equivalem a conclusão sobre responsabilidades em nenhum dos dois casos.

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