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Lista de boicote por voto é ilícita e pode virar crime, dizem advogados

Ouvidos pela BBC News Brasil, dois juristas dizem que boicotar é liberdade de consumo, mas listas com nomes por voto presumido violam a LGPD e podem configurar perseguição, difamação ou injúria.

Duas mãos seguram um celular branco com uma conversa de aplicativo de mensagens aberta e o teclado de emojis na tela.
Celular com aplicativo de mensagens aberto, em 22/10/2015. Foto de arquivo: Helar Lukats — CC BY-SA 4.0. A imagem não registra as listas de boicote nem pessoas citadas na matéria. Origem da fotografia. Condição de uso.

Advogados ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que deixar de comprar de um estabelecimento ou sugerir que outros façam o mesmo é liberdade de expressão e de consumo, mas que as listas de negócios e profissionais “petistas” que circulam em redes sociais e grupos de WhatsApp desde 26/10 são outra coisa: expor pessoas por um voto presumido pode ser ilegal, e em alguns casos criminoso.

O que dizem os especialistas

O professor de direito do trabalho da USP e desembargador do TRT-15 Guilherme Guimarães Feliciano diz que a lista contraria o sigilo do voto e a garantia constitucional de que ninguém será privado de direitos por convicção política. Para ele, quem cria ou compartilha as listas pode ser enquadrado em perseguição (stalking), difamação e injúria, a depender das condutas imputadas, ou em incitação ao crime, se houver estímulo à violência contra os alvos. Ele observa que a lei antidiscriminatória vigente não protege a opinião política.

O advogado Gustavo Ramos, mestre em Direito das Relações Sociais e Trabalhistas, faz uma distinção: a “lista pura”, que apenas associa nomes a um voto presumido, provavelmente configura ilícito civil, mas dificilmente crime, porque dizer que alguém votou em determinado candidato não ofende, em si, a honra. “O crime surge quando a lista vem acompanhada de algo mais”, afirma, e quem reenvia a lista com o propósito de prejudicar responde da mesma forma que o autor, pois cada reenvio é nova divulgação. Ramos acrescenta que opinião política é dado pessoal sensível pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e compilar e divulgar essa informação sem autorização é ilícito por si só.

Boicote clássico e lista por voto

Os dois contrapõem as listas atuais ao boicote a empresas por posições públicas de seus donos, que consideram lícito em qualquer orientação política. Ramos compara ainda com a Lista Suja do Trabalho Escravo, que seria lícita por se basear em fatos apurados com direito de defesa e por servir a interesse público previsto em lei, atributos que, segundo ele, a lista por voto não tem.

Os casos relatados

A reportagem relata o cabeleireiro Alex Santos, de Joinville (SC), que diz ter perdido clientes depois de comemorar a vitória de Lula em seu perfil pessoal; a cidade deu 73,82% dos votos válidos a Flávio, segundo dados do TSE compilados pela BBC. Em Ribeirão Preto (SP), o dono de um bar relata que a lista provocou o efeito oposto, com clientes indo ao local em solidariedade, e que a solidariedade também se organiza para outros comércios. Ele enviou e-mails ao Ministério Público local, que teria encaminhado o caso ao Ministério Público do Trabalho. A BBC procurou os Ministérios Públicos de São Paulo e de Santa Catarina, que não disseram se tomarão alguma atitude. As listas não foram reproduzidas pela reportagem para não expor os estabelecimentos.

O que já foi feito

O tema já chegou às autoridades: o PSOL acionou a Polícia Federal contra as listas, a Justiça do Trabalho mandou a Meta tirar posts que incentivam demissões por voto e o PT propôs pena de até seis anos de prisão por discriminação política no trabalho. Trata-se de opiniões de dois juristas; não há decisão judicial sobre as listas citadas na reportagem.

Fonte: BBC News Brasil, reportagem publicada em 29/10/2026 e atualizada em 30/10, lida na íntegra em 31/10, às 04h15.

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