Cerca de 270 mil brasileiros viviam no Paraguai em 2025, segundo estimativa do Ministério das Relações Exteriores, a maior comunidade brasileira da América do Sul e a terceira do mundo, atrás de Estados Unidos e Portugal. Com a liquidação do Ueno Bank, decretada pelo Banco Central do Paraguai na terça-feira (3), uma parte desse grupo ficou sem acesso ao dinheiro. Não há dado oficial sobre quantos correntistas brasileiros foram atingidos.
Por que tantos brasileiros tinham conta no Ueno
O banco tinha cerca de 3 milhões de clientes, o equivalente a 60% dos adultos do país, segundo dados da própria instituição. Para o economista Alexandre Barros da Costa, pesquisador da Unila e da UFPR que acompanha a economia paraguaia, a abertura rápida e sem muita burocracia de contas tornou o Ueno a primeira opção de estudantes de medicina, pequenos comerciantes da fronteira, produtores rurais e investidores brasileiros. Ele estima que a crise possa afetar dezenas de milhares de brasileiros; é uma estimativa, não uma contagem.
Outra conta, feita por reportagem, aplica ao total de brasileiros a proporção de paraguaios com conta no banco (de 40% a 60%) e chega a 108 mil a 162 mil pessoas. O próprio cálculo parte da hipótese de que os brasileiros usavam o banco na mesma proporção dos paraguaios, o que não está comprovado; serve como ordem de grandeza.
Os números da presença brasileira
- Medicina: dos 45.872 estudantes de medicina no Paraguai, 35.273 (76,9%) são brasileiros, segundo reportagem do jornal paraguaio ABC Color de outubro de 2025; 15.389 deles estão no departamento de Alto Paraná, na fronteira. A mensalidade média gira em torno de 3 milhões de guaranis (cerca de R$ 2.645), contra R$ 9.500 a R$ 11.500 no Brasil, e a maioria volta depois para fazer o Revalida e exercer a profissão no Brasil.
- Empresas: 232 empresas brasileiras operam no país desde 2007 pela Lei de Maquila, que dá incentivos fiscais a indústrias exportadoras. Elas são 70% das estrangeiras nesse regime e geram 25 mil empregos locais; 89 são do setor têxtil.
- Residência: de janeiro a outubro de 2026, 67% das autorizações de residência concedidas a estrangeiros foram para brasileiros, segundo o governo paraguaio.
Relatos de quem ficou sem acesso
Renata de Brito, de 44 anos, mudou-se para Hernandarias, perto da fronteira, depois de ser afetada pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Tinha no Ueno as economias e os pagamentos da lanchonete, que recebia pela maquininha do banco. Já pagou as contas que venciam neste mês, mas teme não ter o dinheiro de volta até o fim de novembro, quando vence a parcela de um apartamento. A médica Katrye Lucena, de 27 anos, teve o salário do mês retido e disse não ter acesso a recursos nem para aluguel e alimentação. São relatos individuais, não permitem medir a extensão do problema.
O que se sabe sobre a devolução do dinheiro
O Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai cobre até 228 milhões de guaranis por pessoa (cerca de R$ 211 mil na conversão da fonte). O Banco Central paraguaio havia garantido o ressarcimento e dito que ainda precisava avaliar se conseguiria cobrir valores acima desse limite. Na sexta-feira (6), o novo presidente, Pedro Alliana, mandou o governo agir de imediato para ressarcir os poupadores, com prioridade aos menos favorecidos, e o ex-presidente Santiago Peña promulgou antes da destituição uma lei que deve permitir aos poupadores recuperar o dinheiro em menos tempo. Nas fontes lidas pelo OsPoderes não consta orientação específica do governo brasileiro a correntistas do Ueno.
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