Com os democratas à frente das duas Casas do Congresso, o presidente Donald Trump deve contrariar o costume de presidentes enfraquecidos de buscar resultados na política externa e se concentrar no custo de vida dos americanos, avaliam especialistas ouvidos em reportagem. Os efeitos para o resto do mundo, segundo eles, vão do financiamento da guerra no Irã à pressão sobre Cuba e à fiscalização de medidas dirigidas ao Brasil. São avaliações, não decisões do governo americano.
O costume dos “patos mancos”
Historicamente, presidentes que perdem força no Congresso, os chamados “patos mancos”, voltam a atenção para a política externa, onde têm mais autonomia. A reportagem lembra Bill Clinton, que tentou um acordo de paz entre israelenses e palestinos, e Barack Obama, que, depois da derrota democrata em 2014, fechou o acordo nuclear com o Irã e reatou relações com Cuba, segundo análise citada. Para Roberto Uebel, da ESPM, Trump precisa de resultados econômicos para sobreviver politicamente; para Vinicius Rodrigues Vieira, da Faap, as dificuldades no Irã e a competição com a China tornam novas intervenções mais arriscadas.
Irã, Israel e Ucrânia
- Irã: a nova maioria pode dificultar o financiamento da guerra e aumentar a pressão por um acordo. Vieira acha que Trump buscará uma saída negociada que possa vender como vitória. Vitelio Brustolin, da UFF, considera improvável um recuo imediato e diz que Trump ainda pode tentar garantir recursos antes da posse do novo Congresso, em 3 de janeiro. O vice-presidente JD Vance e o próprio Trump já ligaram a derrota à guerra (leia mais).
- Israel: na terça-feira (3), Trump anunciou que pretende encerrar a ajuda anual de cerca de US$ 4 bilhões a partir de 2027. Brustolin avalia que o anúncio teve caráter eleitoral e não encerra a cooperação militar: Israel poderá seguir comprando armas, como caças e defesa antiaérea; Uebel vê um primeiro sinal de afastamento do Oriente Médio.
- Ucrânia: Vieira diz que Trump pode tentar acelerar um acordo de paz, mas lembra que os democratas ainda precisam definir o grau de envolvimento americano, com divergência entre alas mais isolacionistas e mais ativas.
América Latina e Brasil
Uebel prevê afastamento gradual dos EUA da região, com Trump focado em recuperar força política interna e o secretário de Estado, Marco Rubio, voltado a uma possível candidatura em 2028; Brustolin e Uebel não descartam a continuidade de ações militares na região, e Vieira vê mais chance de atenção a Cuba. Para o Brasil, a avaliação é de continuidade das políticas americanas: Brustolin não vê repercussão direta na redução ou aplicação de tarifas, mas acha que o novo Congresso pode usar questões ligadas ao Brasil para questionar autoridades do governo Trump, como Rubio e o secretário de Guerra, Pete Hegseth. Vieira acredita que o Brasil não será o país mais afetado da região. Veja também o que analistas dizem sobre a pressão de Trump sobre o Brasil e o acompanhamento das midterms.






















