A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato deve trazer obstáculos à agenda interna de Donald Trump, mas não deve mudar a postura da Casa Branca em relação ao Brasil, avaliam analistas ouvidos em reportagem. Para eles, as tarifas, a pressão para o país se afastar da China e a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas seguem fora do alcance do Congresso.
O que dizem os analistas
- Otaviano Canuto, economista, ex-vice-presidente do BID e professor na Universidade George Washington, diz que um Congresso mais democrata muda a interlocução com o Itamaraty, mas “não terá condições de mexer na política comercial de Trump”. Espera mais pedidos de esclarecimento, inclusive sobre a presença de Flávio Bolsonaro na Flórida, “mas nada que afete as tarifas”.
- Lucas Leite, professor da FAAP, avalia que o governo Lula pode ganhar interlocução com democratas em temas como meio ambiente, o que não basta para mudar a política externa de Trump, cujas ferramentas de pressão fogem da esfera do Capitólio.
- Regiane Bressan, professora da Unifesp, considera provável que as comissões de Relações Exteriores das duas Casas passem a ser presididas por democratas, com mais pedidos de explicações ao Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio; para ela, esse será “o contraste mais evidente” no novo jogo de forças.
- Carlos Gustavo Poggio, professor do Berea College (Kentucky), lembra que Trump governa por decretos: assinou 225 no ano passado e, em 2026, o número chegou a 290. A constitucionalidade dessas decisões, nesses casos, cabe à Suprema Corte, e não ao Congresso.
As medidas contra o Brasil
Leite cita duas medidas recentes. A primeira é a tarifa de 25% sobre uma série de importações brasileiras, anunciada em julho pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) com base na Seção 301 da lei comercial de 1974; com as exceções fixadas pela Casa Branca, uma série de produtos brasileiros entra nos EUA com taxa de 37,5%. A segunda é a Lei Magnitsky: Alexandre de Moraes, do STF, foi incluído na lista em julho do ano passado e, meses depois, a esposa dele; em dezembro, o Tesouro dos EUA retirou ambos da lista, e a reportagem registra relato de imprensa de que haveria intenção de recolocar o ministro, sem confirmação oficial. Para o professor, o Congresso dificilmente reverteria qualquer das duas, por serem instrumentos do Executivo.
Por que o veto pesa
Mesmo que revisar tarifas ou a classificação das facções fosse prioridade dos democratas, qualquer projeto aprovado pelo Congresso pode ser vetado por Trump. Derrubar o veto exige dois terços das duas Casas: 290 cadeiras na Câmara e 67 no Senado, o que, na prática, dependeria de acordos com republicanos.
Placar usado na reportagem
A reportagem cita 237 deputados democratas contra 139 republicanos e 54 senadores democratas contra 44, com resultados ainda pendentes no Mississippi e no Alasca; no Alasca, a democrata Mary Peltola tinha 625 votos de vantagem sobre o republicano Dan Sullivan, com 77% das seções apuradas até a noite de quarta-feira (4). Os números são os citados na fonte, e a Câmara aparece com 228 a 139 em outras contagens; veja o acompanhamento das midterms.
Leia também
O senador Nelsinho Trad disse que a vitória democrata amplia a pressão sobre o tarifaço, mas não o derruba (leia mais); o governo Lula espera um encontro com Trump no G20, em Miami (leia mais).






















