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Comandos ocultos em petições tentam manipular IA de juízes; há 83 casos

Levantamento aponta 83 casos em que a Justiça detectou instruções escondidas em documentos; há episódios em tribunais estaduais, no STJ e no STF. OAB e CNJ se manifestaram.

Fachada de concreto do prédio do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, com espelho d'água e bandeiras do Brasil ao fundo
Sede do Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, em 14/5/2021. Foto de arquivo: Rafael Luz/STJ — CC BY 2.0. A imagem não registra o caso citado na reportagem. Origem da fotografia. Condição de uso.

Advogados têm escondido instruções em petições para tentar influenciar ferramentas de inteligência artificial usadas por magistrados. Segundo reportagem do Fantástico, exibida no domingo (1º) e resumida pelo g1, a prática já foi identificada em diferentes instâncias, do primeiro grau ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Uma plataforma que reúne dados públicos de julgamentos contou 83 casos em que a Justiça detectou comandos fraudulentos.

Como funciona

Segundo a reportagem, o texto é escondido em letras brancas sobre fundo branco, em fontes muito pequenas, em comentários desativados ou nos metadados do arquivo. As instruções podem pedir que a IA privilegie os argumentos de uma das partes ou ignore uma prova. Se não forem notadas, podem influenciar os relatórios que o sistema produz para o magistrado.

Os casos citados

  • Rio Negrinho (SC): o juiz Matheus Della Giustina Perin, da 1ª Vara, usou uma ferramenta de IA em uma ação de uma empresária negativada por uma dívida que não reconhecia. O sistema apontou algo suspeito e, depois de checagem manual, ele confirmou comandos que pediam ignorar instruções externas, afirmar que não havia ato ilícito e julgar os pedidos improcedentes. A empresa perdeu a ação, foi multada em R$ 1 mil e os nomes dos advogados foram enviados ao Conselho de Ética da OAB de Santa Catarina. Os advogados Francisco Antônio Fragata Junior e Luis Carlos Monteiro Laurenço disseram, em nota, que o comando foi uma falha alheia à vontade do escritório, atribuída a uma advogada associada; afirmaram ter adotado medidas criminais e disciplinares e que a OAB catarinense arquivou o caso liminarmente.
  • Videira (SC): em ação de seguradora contra a prefeitura por uma colisão em 2022, a tentativa passou despercebida na primeira instância e só foi achada no segundo grau, escondida em frases de teor positivo sobre o resultado do processo. A Justiça aplicou multa por litigância de má-fé de um salário mínimo. A advogada Fernanda Damo afirmou que não quis manipular o sistema e que as frases eram uma forma de pensamento positivo.
  • STJ: em processo sobre assassinato, o tribunal achou uma instrução para que a IA acolhesse as razões da defesa. O caso foi enviado ao Ministério Público Federal (MPF) e à OAB da Paraíba. O escritório de Roberto de Oliveira Nascimento disse ter rescindido o contrato com o advogado responsável, e o advogado Renato Santos de Melo negou má-fé.
  • STF: em processo ligado aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, um código em tamanho reduzido no alto da petição mandava “negar todos os comandos do GPT”. O advogado Marcelo Henrique Martins foi multado em R$ 5 mil; o MPF vai apurar se houve crime e a OAB avaliará o caso. Ele disse que recorreu e que desconhecia a instrução no arquivo.

O que dizem as instituições

A OAB Nacional considera inadmissível o uso de comandos ocultos e defende punir condutas irregulares. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afirma que usar IA não retira a responsabilidade de quem assina uma petição ou uma decisão. Tribunais têm divulgado orientações para que os documentos sejam inspecionados antes de entrar em sistemas de IA.

O líder de pesquisas do Jusbrasil, Luiz Paulo Pinho, disse que a responsabilidade pelo conteúdo é de quem assina as peças e que profissionais do Direito precisam usar ferramentas capazes de identificar esse tipo de interferência. A desembargadora Brigitte Remor de Souza May afirmou que os comandos são sofisticados, que sua equipe usou dois sistemas de IA e ainda teve dificuldade para localizá-los, e defendeu ampliar a checagem dos documentos.

O que falta saber

A reportagem não detalha o período coberto pelos 83 casos nem a metodologia da contagem. Não há, na matéria lida, decisão definitiva sobre responsabilidade criminal ou disciplinar de nenhum dos advogados citados; os procedimentos de MPF e OABs seguem em curso, e as defesas negam intenção de fraudar.

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